Sentado na Brasileira com Fernando Pessoa (Reductio ad Absurdum)

Sentei-me, e olhei para ele.  Verde, calado e parado como sempre. Como todas as tardes que passo com ele, os dois…olhando para o céu, quando o sol lá no alto dá o ar da sua graça.
Penso nesses momentos na razão porque estou parado, no silêncio conversacional. Nós nunca falamos. Todas as quintas ele manda-me uma sms, eu apareço, e ficamos os dois ali parados. Eu bebo um cappucinno, e ele olha para as pessoas que saem do metro.
É o silêncio…calmo.. quando…
…Um vórtex abre-se debaixo de mim e caio no eterno zigue-zague. Parece uma daquelas noites com a má sangria de um tasca ranhosa do bairro alto, do género que nem damos ao lixo porque sabemos que nem tudo entra ali. Lili caneças e o limite pára por aí. A sangria ultrapassa esse limite.
Onde páro? Numa rua. Onde os táxis não param de passar. Constantemente, de 15 em 15 segundos, cada um deles trazendo novos passageiros, que não vão para lado nenhum, só em frente, pois esta rua nunca acaba. Atrás de mim tenho uma pessoa. Essa pessoa representa o Passado. Ao meu lados duas pessoas conversam, essas pessoas representam o Presente. à minha frente tenho um rapaz a olhar para o céu com um copo de cerveja na mão..ele representa o Futuro. Não gosto de nenhum deles.
Outro vórtex abre-se debaixo de mim, ainda mais rodopiante e estonteante que o outro, vou parar sentado, num banco do metro algures numa estação quase abandonada. Senão pelas três miúdas sentadas ao meu lado, por volta de 14 anos. Todas com roupas iguais, só as cores é que mudam. Malas iguais, sapatos…tudo! Conversam…e eu oiço:

1ª Rapariga- …Aaah! A sério? E tiveste com o Hélder?
2ª Rapariga- Hm..Sim tive. Mas foi só um bocado, fomos passear, demos uns beijinhos…pouca coisa. Nada que se conte.
3ª Rapariga- Desculpa? Quem é o Hélder?
1ª- É um rapaz que anda com ela.
3ª – Eu só me lembro daquele loiro alto, todo bom, lá da discoteca…
2ª -..É esse! Então sabes quem ele é.
3ª-Ele é todo giraço. Só a mim não me calham esses. Como os das novelas. Gosto de rapazes só daquele género. (penso para mim que não terá problemas em encontrá-los, eu saio de casa e vejo-os a todos, seguindo um pastor) – e tu? Nada?
1ª- Tipo… curti com um gajo na discoteca.
2ª e 3ª -Hihihihihihi!
1ª- Ai só uns beijos, nada sério. Não fomos para a cama.
2ª e 3ª- Que treta…

Um novo vórtex abre-se debaixo de mim, e volto a estar sentado com Fernando Pessoa. Ele olha para mim e sorri, levanta-se e vai pagar a nossa conta. EU retribuo o sorriso porque percebi que de facto deixei a torneira de casa aberta.

Atenciosamente Submarino U-555 (posted by peasant)

1 Comentário

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Uma resposta a Sentado na Brasileira com Fernando Pessoa (Reductio ad Absurdum)

  1. Ora bem… A vossa relação é bastante profunda, mas para haver tanto silêncio vê-se que se trata de dois rapazes, claro.
    Vê-se também que és um rapaz muito vivido, as tuas noites são difíceis de superar e gostas de bebidas com qualidade. Mas somos só estudantes, não queremos coisas muito caras, vê lá.

    Essa cena dos táxis… É-me familiar. Lembro-me que também estive com o Presente, o Passado e com o Futuro ao meu lado, não gostei de nenhum e tive que ser eu a dar uma nota de 10€ para pagar o taxi.
    O metro… Hmm suspeito. Mas suspeitava mais se essas pré-adolescentes olhassem para ti com qualquer intuito de repetir a cena da discoteca. Mas isso já sou eu…!
    Qualquer dia vou ter com o Fernando, ele tem ligado mas não atendo, ando a evitá-lo…

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